Sede firmes na devoção a um só aspecto; quer seja a Deus como forma ou a Deus sem forma.
A firmeza na fé é a primeira coisa necessária a realização. Nada pode ser adquirido sem firmeza. Se tendes firme fé em Deus como forma, O obtereis; da mesma forma, se credes firmemente numa Deidade impessoal e sem forma, conseguireis alcança-la. Os conceitos são doces, quer sejam por vós mordidos de um modo ou de outro. Porém tereis que ser firmes e chama-LO com extremo anelo. Quando um homem mundano fala de Deus, sabeis com que o comparo? Com os meninos que contendem enquanto jogam e invocam o nome de Deus em vão; ou com o fátuo que passa num jardim, bastão na mão, e tomando uma flor, exclama com petulância: “Que flor formosa fez Deus!” E, ainda, este pensamento de Deus dura tão-só um momento, tanto como gostas d’água sobre o ferro cadente. A firmeza na devoção a um aspecto é absolutamente necessária. Submergi-vos profundamente. Sem descer ao Oceano, ninguém pode alcançar o tesouro. Se flutuais na superfície, não podereis chegar a Ele. Aprendei a amar a Deus. Absorvei-vos em Seu amor. Ouvi vossas orações e exercícios religiosos; porém, por que falais tanto dos fenômenos que Deus fez? Ó, Senhor! Tu fizeste o firmamento, o poderoso oceano, a lua, o sol, as estrelas e os planetas. Ó, Senhor! Tu fizeste isto e aquilo.
Por que vos detendes nessas coisas? Ao ver o formoso jardim de um homem rico, todos exclamarão: “Que bela árvore! Que linda flor! Que tanque grande e que lindos são os peixes que há nele! Que edifício artístico! Quão ricas sãos as decorações da sala!”
À vista de tudo isso, todos ficam assombrados; porém, quantos procuram conhecer o dono do jardim? São mui poucos. Aqueles que O buscam com ânsia intensa, vêem-n’O, fazem amizade com Ele, falam com Ele, exatamente da mesma forma que estou falando convosco. Digo-vos a verdade quando falo que Deus pode ser visto. Quem me escutará e quem me acreditará?
Pode Deus ser achado nas Escrituras?
O conhecimento mais elevado que podemos adquirir pela leitura delas é o que concerne a existência de um Deus; porém, Deus não se revela senão ao que se submerge embaixo da superfície.
Até então existem sempre as dúvidas e o conhecimento divino não vem. Podeis ler milhares de volumes, repetir versos e centenas de hinos, porém, se não podeis submergir-vos no oceano da Divindade com extremo anelo, não chegareis a alcançar a Deus. Um sábio pode iludir a gente por seu conhecimento das escrituras e por sua erudição, porém por este meio ele não obterá a Deus. As escrituras, livros, ciências, que bem farão? Nada pode ser adquirido sem a Graça do Senhor. Anelai a sua Graça, dedicai vossa energia para obtê-la e por Sua Graça O vereis e Ele se alegrará em falar convosco.
Râmakrishna
quarta-feira, 31 de dezembro de 2008
terça-feira, 11 de novembro de 2008
Quarenta e um
Que eu nunca peça para ficar livre dos perigos,
e sim coragem para enfrentá-los.
Que eu nunca mendigue a paz para minha dor,
e sim coração forte para dominá-la.
Que eu não procure aliados na batalha da vida,
e sim minha própria força.
Que eu não anseie medrosamente pela salvação,
e sim que tenha esperança e paciência
para conquistar minha liberdade.
Senhor, concede que eu não seja tão covarde
para sentir tua misericórdia apenas em meu triunfo.
Permite-me encontrar o aperto de tua mão
dentro de meu fracasso.
Rabindranath Tagore
e sim coragem para enfrentá-los.
Que eu nunca mendigue a paz para minha dor,
e sim coração forte para dominá-la.
Que eu não procure aliados na batalha da vida,
e sim minha própria força.
Que eu não anseie medrosamente pela salvação,
e sim que tenha esperança e paciência
para conquistar minha liberdade.
Senhor, concede que eu não seja tão covarde
para sentir tua misericórdia apenas em meu triunfo.
Permite-me encontrar o aperto de tua mão
dentro de meu fracasso.
Rabindranath Tagore
quinta-feira, 6 de novembro de 2008
Quarenta
Frutos, dão-os as árvores que vivem,
Não a iludida mente, que só se orna
Das flores lívidas
Do íntimo abismo.
Quantos reinos nos seres e nas cousas
Te não talhaste imaginário! Quantos,
Com a charrua,
Sonhos, cidades!
Ah, não consegues contra o adverso muito
Criar mais que propósitos frustrados!
Abdica e sê Rei de ti mesmo.
Ricardo Reis (Fernando Pessoa)
Não a iludida mente, que só se orna
Das flores lívidas
Do íntimo abismo.
Quantos reinos nos seres e nas cousas
Te não talhaste imaginário! Quantos,
Com a charrua,
Sonhos, cidades!
Ah, não consegues contra o adverso muito
Criar mais que propósitos frustrados!
Abdica e sê Rei de ti mesmo.
Ricardo Reis (Fernando Pessoa)
terça-feira, 4 de novembro de 2008
Trinta e nove
Da Ética dos Derviches
Recordo que em minha infância, me inclinava à religiosidade e estava ansioso por gratificar-me com atos de piedade e abstinência. Uma vez passei a noite toda em oração, sem dormir nem por um só momento e sustentando o Alcorão sobre minhas pernas, enquanto todos ao meu redor dormiam. Disse ao meu pai: "Ninguém levanta a cabeça do sono para rezar, dormem tão profundamente que se poderia dizer que estão mortos." Ele respondeu: "Meu filho, para você, seria melhor dormir do que encontrar a falta dos outros."
O homem pretensioso vê somente a si mesmo, pois tem uma cortina de vaidade diante de seus olhos. Se tão somente tivesse os olhos de Alláh, não verias ninguém mais desvalido que tu mesmo.
(Saadi de Shiraz, al-Gulistan)
Recordo que em minha infância, me inclinava à religiosidade e estava ansioso por gratificar-me com atos de piedade e abstinência. Uma vez passei a noite toda em oração, sem dormir nem por um só momento e sustentando o Alcorão sobre minhas pernas, enquanto todos ao meu redor dormiam. Disse ao meu pai: "Ninguém levanta a cabeça do sono para rezar, dormem tão profundamente que se poderia dizer que estão mortos." Ele respondeu: "Meu filho, para você, seria melhor dormir do que encontrar a falta dos outros."
O homem pretensioso vê somente a si mesmo, pois tem uma cortina de vaidade diante de seus olhos. Se tão somente tivesse os olhos de Alláh, não verias ninguém mais desvalido que tu mesmo.
(Saadi de Shiraz, al-Gulistan)
quarta-feira, 17 de setembro de 2008
sábado, 23 de agosto de 2008
Trinta e sete
Poeminha sentimental
O meu amor, o meu amor, Maria
É como um fio telegráfico da estrada
Aonde vêm pousar as andorinhas...
De vez em quando chega uma
E canta
(Não sei se as andorinhas cantam, mas vá lá!)
Canta e vai-se embora
Outra, nem isso,
Mal chega, vai-se embora.
A última que passou
Limitou-se a fazer cocô
No meu pobre fio de vida!
No entanto, Maria, o meu amor é sempre o mesmo:
As andorinhas é que mudam.
Mario Quintana, Preparativos de Viagem
O meu amor, o meu amor, Maria
É como um fio telegráfico da estrada
Aonde vêm pousar as andorinhas...
De vez em quando chega uma
E canta
(Não sei se as andorinhas cantam, mas vá lá!)
Canta e vai-se embora
Outra, nem isso,
Mal chega, vai-se embora.
A última que passou
Limitou-se a fazer cocô
No meu pobre fio de vida!
No entanto, Maria, o meu amor é sempre o mesmo:
As andorinhas é que mudam.
Mario Quintana, Preparativos de Viagem
sexta-feira, 22 de agosto de 2008
Trinta e seis
"O amante se prova verdadeiro pela dor em seu coração;
Não há mal como o mal do coração.
A dor do amante é diferente de todas as dores;
O amor é o astrolábio dos mistérios de Deus.
Pode o amante suspirar por este ou aquele amor,
Mas no fim é atraído ao Rei do amor.
Por mais que se descreva ou se explique o amor,
Quando nos apaixonamos envergonhamo-nos de nossas palavras.
A explicação pela língua esclarece a maioria das coisas,
Mas o amor não explicado é mais claro.
Quando a pena se apressou em escrever,
Ao chegar no tema do amor, partiu-se em duas.
Quando o discurso tocou na questão do amor,
A pena partiu-se e o papel rasgou-se.
Ao explicá-lo, a razão logo empaca, como um asno no atoleiro;
Nada senão o próprio Amor pode explicar o amor e os amantes!"
Rumi
Não há mal como o mal do coração.
A dor do amante é diferente de todas as dores;
O amor é o astrolábio dos mistérios de Deus.
Pode o amante suspirar por este ou aquele amor,
Mas no fim é atraído ao Rei do amor.
Por mais que se descreva ou se explique o amor,
Quando nos apaixonamos envergonhamo-nos de nossas palavras.
A explicação pela língua esclarece a maioria das coisas,
Mas o amor não explicado é mais claro.
Quando a pena se apressou em escrever,
Ao chegar no tema do amor, partiu-se em duas.
Quando o discurso tocou na questão do amor,
A pena partiu-se e o papel rasgou-se.
Ao explicá-lo, a razão logo empaca, como um asno no atoleiro;
Nada senão o próprio Amor pode explicar o amor e os amantes!"
Rumi
quarta-feira, 30 de julho de 2008
Trinta e cinco
Pensamentos de Albert Einstein
"Nenhum problema pode ser resolvido pelo mesmo grau de consciência que o gerou."
"Se as pessoas são boas só por temerem o castigo e almejarem uma recompensa, então realmente somos um grupo muito desprezível."
"Penso 99 vezes e nada descubro. Deixo de pensar, mergulho no silêncio e a verdade me é revelada."
"Você entende a relatividade quando vê que 1 hora com a sua namorada parece 1 minuto, e 1 minuto sentado num formigueiro parece 1 hora."
"Só quem não procura se livra do erro."
"O tempo e o espaço são modos pelos quais pensamos e não condições nas quais vivemos."
"O segredo da criatividade é saber esconder suas fontes."
"Os ideais que iluminaram meu caminho e sempre me deram coragem para enfrentar a vida com alegria foram: a verdade, a bondade e a beleza."
"No campo daqueles que procuram a verdade, não existe nenhuma autoridade humana. Todo aquele que se fizer de magistrado encontrará imediatamente a risada dos deuses."
"Você não pode prevenir e preparar-se para a guerra ao mesmo tempo."
"O que um peixe sabe sobre a água da qual nada a vida inteira?"
"É espantosamente óbvio que nossa tecnologia excede nossa humanidade."
"Minhas idéias levaram as pessoas a reexaminar a física de Newton. Naturalmente alguém um dia irá reexaminar minhas próprias idéias. Se isto não acontecer haverá uma falha grosseira em algum lugar."
"A Ciência sem a Religão é coxa, a Religião sem a Ciência é cega."
"A vida é como andar de bicicleta. Para manter seu equilíbrio você deve continuar em movimento."
"Educação é aquilo que fica depois que se esquece tudo que se aprendeu na escola."
"Uma pessoa esclarecida resolve um problema. Uma pessoa sábia o evita."
"A paz não pode ser mantida pela força. Ela só pode ser obtida pelo entendimento."
"O ser humano vivência a si mesmo, seus pensamentos como algo separado do resto do universo numa espécie de ilusão de ótica de sua consciência. E essa ilusão é uma espécie de prisão que nos restringe a nossos desejos pessoais, conceitos e ao afeto por pessoas mais próximas. Nossa principal tarefa é a de nos livrarmos dessa prisão, ampliando o nosso círculo de compaixão, para que ele abranja todos os seres vivos e toda a natureza em sua beleza. Ninguém conseguirá alcançar completamente esse objetivo, mas lutar pela sua realização já é por si só parte de nossa liberação e o alicerce de nossa segurança interior."
"Procure ser uma pessoa de valor, em vez de procurar ser uma pessoa de sucesso. O sucesso é conseqüência."
"O fato mais grave, me parece, é uma escola recorrer essencialmente ao medo, ao constrangimento e a uma autoridade articicial. Esse tratamento destrói nos estudantes o gosto pela vida, a sinceridade e a confiança em si mesmos. E gera pessoas servis."
"Nenhum problema pode ser resolvido pelo mesmo grau de consciência que o gerou."
"Se as pessoas são boas só por temerem o castigo e almejarem uma recompensa, então realmente somos um grupo muito desprezível."
"Penso 99 vezes e nada descubro. Deixo de pensar, mergulho no silêncio e a verdade me é revelada."
"Você entende a relatividade quando vê que 1 hora com a sua namorada parece 1 minuto, e 1 minuto sentado num formigueiro parece 1 hora."
"Só quem não procura se livra do erro."
"O tempo e o espaço são modos pelos quais pensamos e não condições nas quais vivemos."
"O segredo da criatividade é saber esconder suas fontes."
"Os ideais que iluminaram meu caminho e sempre me deram coragem para enfrentar a vida com alegria foram: a verdade, a bondade e a beleza."
"No campo daqueles que procuram a verdade, não existe nenhuma autoridade humana. Todo aquele que se fizer de magistrado encontrará imediatamente a risada dos deuses."
"Você não pode prevenir e preparar-se para a guerra ao mesmo tempo."
"O que um peixe sabe sobre a água da qual nada a vida inteira?"
"É espantosamente óbvio que nossa tecnologia excede nossa humanidade."
"Minhas idéias levaram as pessoas a reexaminar a física de Newton. Naturalmente alguém um dia irá reexaminar minhas próprias idéias. Se isto não acontecer haverá uma falha grosseira em algum lugar."
"A Ciência sem a Religão é coxa, a Religião sem a Ciência é cega."
"A vida é como andar de bicicleta. Para manter seu equilíbrio você deve continuar em movimento."
"Educação é aquilo que fica depois que se esquece tudo que se aprendeu na escola."
"Uma pessoa esclarecida resolve um problema. Uma pessoa sábia o evita."
"A paz não pode ser mantida pela força. Ela só pode ser obtida pelo entendimento."
"O ser humano vivência a si mesmo, seus pensamentos como algo separado do resto do universo numa espécie de ilusão de ótica de sua consciência. E essa ilusão é uma espécie de prisão que nos restringe a nossos desejos pessoais, conceitos e ao afeto por pessoas mais próximas. Nossa principal tarefa é a de nos livrarmos dessa prisão, ampliando o nosso círculo de compaixão, para que ele abranja todos os seres vivos e toda a natureza em sua beleza. Ninguém conseguirá alcançar completamente esse objetivo, mas lutar pela sua realização já é por si só parte de nossa liberação e o alicerce de nossa segurança interior."
"Procure ser uma pessoa de valor, em vez de procurar ser uma pessoa de sucesso. O sucesso é conseqüência."
"O fato mais grave, me parece, é uma escola recorrer essencialmente ao medo, ao constrangimento e a uma autoridade articicial. Esse tratamento destrói nos estudantes o gosto pela vida, a sinceridade e a confiança em si mesmos. E gera pessoas servis."
- Lição extraída do tempo em que estudava na escola secundária Luitpold Gymnasium
- Scientific American. Gênios da Ciência. Einstein
terça-feira, 29 de julho de 2008
Trinta e quatro
As três formas de amor: Eros, Philos, Ágape
Em 1986, enquanto fazia o caminho de Santiago com Petrus, o meu guia, passamos pela cidade de Logroño enquanto se realizava um casamento. Pedimos dois copos de vinho, preparei um prato de canapés, e Petrus descobriu uma mesa onde pudéssemos sentar junto com outros convidados.
O casal de noivos cortou um imenso bolo.
– Eles devem se amar – pensei em voz alta.
– É claro que eles se amam – disse um senhor de terno escuro que estava sentado na mesa. Você já viu alguém casar por outro motivo?
Mas Petrus não deixou passar a pergunta:
– A que tipo de amor o senhor se refere: Eros, Philos ou Ágape?
O senhor olhou sem entender nada.
– Existem três palavras gregas para designar o amor – disse ele. – Hoje você está vendo a manifestação de Eros, aquele sentimento entre duas pessoas.
Os noivos sorriam para os flashes e recebiam cumprimentos.
– Parece que os dois se amam. Dentro de pouco tempo estarão lutando sozinhos pela vida, vão montar uma casa, e vão participar da mesma aventura: isto engrandece e torna digno o amor. Ele vai seguir sua carreira, ela deve saber cozinhar e será uma excelente dona-de-casa, porque foi educada desde criança para isto. Vai acompanhá-lo, terão filhos, e se conseguirem construir alguma coisa juntos, serão realmente felizes para sempre.
“De repente, entretanto, esta história pode acontecer de maneira inversa. Ele vai começar a sentir que não é livre o suficiente para manifestar todo o Eros, todo o amor que tem por outras mulheres. Ela pode começar a sentir que sacrificou uma carreira e uma vida brilhante para acompanhar o marido. Então, ao invés da criação conjunta, cada um irá sentir-se roubado em sua maneira de amar. Eros, o espírito que os une, irá começar a mostrar apenas seu lado mau. E aquilo que Deus havia destinado ao homem como seu mais nobre sentimento, passará a ser fonte de ódio e destruição.
Olhei em volta. Eros estava presente em vários casais. Mas eu podia sentir a presença de Eros Bom e Eros Mau, exatamente como Petrus havia descrito.
– Repare como é curioso – continuou meu guia. – Apesar de ser bom ou ser mau, a face de Eros nunca é a mesma em cada pessoa.
A banda começou a tocar uma valsa. As pessoas foram para um pequeno espaço de cimento em frente ao coreto para dançar. O álcool começava a subir e todos estavam mais suados e mais alegres. Notei uma menina vestida de azul, que deve ter esperado este casamento apenas para que chegasse o momento da valsa, porque queria dançar com alguém com quem sonhava estar abraçada desde que entrou na adolescência. Seus olhos seguiam os movimentos de um rapaz bem vestido, de terno claro, que estava numa roda de amigos. Eles conversavam alegremente, não haviam percebido que a valsa tinha começado, e não notavam, a alguns metros de distância uma menina de azul que olhava insistentemente para um deles.
Pensei nas cidades pequenas, nos casamentos sonhados desde a infância com o rapaz escolhido.
A menina de azul reparou meu olhar e saiu de perto. E como se todo o movimento estivesse combinado, foi a vez do rapaz procurá-la com os olhos. Ao descobrir que ela estava perto de outras garotas, voltou a conversar animadamente com os amigos.
Chamei a atenção de Petrus para os dois. Ele acompanhou durante algum tempo o jogo de olhares, e depois voltou ao seu copo de vinho.
– Agem como se fosse uma vergonha demonstrar que se amam – foi seu único comentário.
Outra menina olhava fixamente para nós dois: devia ter metade de nossa idade. Petrus levantou o copo de vinho, fez um brinde, a garota riu encabulada, e fez um gesto apontando para os pais, quase se desculpando por não chegar mais perto.
– Este é o lado belo do amor – disse. – O amor que desafia, o amor por dois estranhos mais velhos que vieram de longe, e amanhã já partirão por um caminho que ela também gostaria de percorrer. O amor que prefere a aventura.
Em seguida, continuou, apontando para um casal de velhos:
- Veja aqueles dois: não se deixaram contagiar pela hipocrisia, como muitos outros. Pela aparência deve ser um casal de lavradores: a fome e a necessidade os obrigou a superarem juntos muitas dificuldades. Descobriram a força do amor através do trabalho, que é onde Eros mostra sua face mais bela, também conhecida como Philos.
– O que é Philos?
– Philos é o Amor sobre a forma de amizade. É aquilo que eu sinto por você e pelos outros. Quando a chama de Eros não consegue mais brilhar, é Philos que mantém os casais juntos.
– E Ágape?
– Ágape é o amor total, o amor que devora quem o experimenta. Quem conhece e experimenta Ágape, vê que nada mais neste mundo tem importância, apenas amar. Este foi o amor que Jesus sentiu pela humanidade, e foi tão grande que sacudiu as estrelas e mudou o curso da história do homem.
“Durante os milênios da história da Civilização, muitas pessoas foram tomadas por este Amor Que Devora. Elas tinham tanto para dar – e o mundo exigia tão pouco – que foram obrigadas a buscar os desertos e lugares isolados, porque o Amor era tão grande que as transfigurava. Viraram os santos ermitões que hoje nós conhecemos.
“Para mim e para você, que experimentamos outra forma de Ágape, esta vida aqui pode parecer dura, terrível. Entretanto, o Amor que Devora faz com que tudo perca a importância: estes homens vivem apenas para serem consumidos pelo seu Amor.”
Deu um pausa.
– Ágape é o Amor que Devora – repetiu mais uma vez, como se esta fosse a frase que melhor definisse aquela estranha espécie de amor. – Luther King certa vez disse que, quando Cristo falou de amar os inimigos, estava referindo-se à Ágape. Porque, segundo ele, era “impossível gostar de nossos inimigos, daqueles que nos fazem mal, e que tentam amesquinhar mais o nosso sofrido dia-a-dia.”
“Mas Ágape é muito mais que gostar. É um sentimento que invade tudo, que preenche todas as frestas, e faz com que qualquer tentativa de agressão se torne pó.
“ Existem duas formas de Ágape. Uma é o isolamento, a vida dedicada apenas à contemplação. A outra é exatamente o contrário: o contacto com os outros seres humanos, e o entusiasmo, o sentido sagrado do trabalho. Entusiasmo significa transe, arrebatamento, ligação com Deus. O Entusiasmo é Ágape dirigido a alguma idéia, alguma coisa.
“Quando amamos e acreditamos do fundo de nossa alma em algo, nos sentimos mais fortes que o mundo, e somos tomados de uma serenidade que vem da certeza de que nada poderá vencer nossa fé. Esta força estranha faz com que sempre tomemos as decisões certas, na hora exata, e ficamos surpresos com nossa própria capacidade quando atingimos o nosso objetivo.
“O Entusiasmo se manifesta normalmente com todo o seu poder nos primeiros anos de nossas vidas. Ainda temos um laço forte com a divindade, e nos atiramos com tal vontade aos nossos brinquedos, que as bonecas passam a ter vida e os soldadinhos de chumbo conseguem marchar. Quando Jesus falou que era das crianças o reino dos Céus, ele se referia a Ágape sob a forma de Entusiasmo. As crianças chegaram até ele sem ligar para seus milagres, sua sabedoria, os fariseus e os apóstolos. Vinham alegres, movidas pelo Entusiasmo.
“Que em momento algum, pelo resto deste ano, e pelo resto de sua vida, você perca o entusiasmo: ele é uma força maior, voltada para a vitória final. Não se pode deixar que ele escape por nossos dedos só porque nos enfrentamos, no decorrer dos meses, com pequenas e necessárias derrotas”.
Paulo Coelho
Em 1986, enquanto fazia o caminho de Santiago com Petrus, o meu guia, passamos pela cidade de Logroño enquanto se realizava um casamento. Pedimos dois copos de vinho, preparei um prato de canapés, e Petrus descobriu uma mesa onde pudéssemos sentar junto com outros convidados.
O casal de noivos cortou um imenso bolo.
– Eles devem se amar – pensei em voz alta.
– É claro que eles se amam – disse um senhor de terno escuro que estava sentado na mesa. Você já viu alguém casar por outro motivo?
Mas Petrus não deixou passar a pergunta:
– A que tipo de amor o senhor se refere: Eros, Philos ou Ágape?
O senhor olhou sem entender nada.
– Existem três palavras gregas para designar o amor – disse ele. – Hoje você está vendo a manifestação de Eros, aquele sentimento entre duas pessoas.
Os noivos sorriam para os flashes e recebiam cumprimentos.
– Parece que os dois se amam. Dentro de pouco tempo estarão lutando sozinhos pela vida, vão montar uma casa, e vão participar da mesma aventura: isto engrandece e torna digno o amor. Ele vai seguir sua carreira, ela deve saber cozinhar e será uma excelente dona-de-casa, porque foi educada desde criança para isto. Vai acompanhá-lo, terão filhos, e se conseguirem construir alguma coisa juntos, serão realmente felizes para sempre.
“De repente, entretanto, esta história pode acontecer de maneira inversa. Ele vai começar a sentir que não é livre o suficiente para manifestar todo o Eros, todo o amor que tem por outras mulheres. Ela pode começar a sentir que sacrificou uma carreira e uma vida brilhante para acompanhar o marido. Então, ao invés da criação conjunta, cada um irá sentir-se roubado em sua maneira de amar. Eros, o espírito que os une, irá começar a mostrar apenas seu lado mau. E aquilo que Deus havia destinado ao homem como seu mais nobre sentimento, passará a ser fonte de ódio e destruição.
Olhei em volta. Eros estava presente em vários casais. Mas eu podia sentir a presença de Eros Bom e Eros Mau, exatamente como Petrus havia descrito.
– Repare como é curioso – continuou meu guia. – Apesar de ser bom ou ser mau, a face de Eros nunca é a mesma em cada pessoa.
A banda começou a tocar uma valsa. As pessoas foram para um pequeno espaço de cimento em frente ao coreto para dançar. O álcool começava a subir e todos estavam mais suados e mais alegres. Notei uma menina vestida de azul, que deve ter esperado este casamento apenas para que chegasse o momento da valsa, porque queria dançar com alguém com quem sonhava estar abraçada desde que entrou na adolescência. Seus olhos seguiam os movimentos de um rapaz bem vestido, de terno claro, que estava numa roda de amigos. Eles conversavam alegremente, não haviam percebido que a valsa tinha começado, e não notavam, a alguns metros de distância uma menina de azul que olhava insistentemente para um deles.
Pensei nas cidades pequenas, nos casamentos sonhados desde a infância com o rapaz escolhido.
A menina de azul reparou meu olhar e saiu de perto. E como se todo o movimento estivesse combinado, foi a vez do rapaz procurá-la com os olhos. Ao descobrir que ela estava perto de outras garotas, voltou a conversar animadamente com os amigos.
Chamei a atenção de Petrus para os dois. Ele acompanhou durante algum tempo o jogo de olhares, e depois voltou ao seu copo de vinho.
– Agem como se fosse uma vergonha demonstrar que se amam – foi seu único comentário.
Outra menina olhava fixamente para nós dois: devia ter metade de nossa idade. Petrus levantou o copo de vinho, fez um brinde, a garota riu encabulada, e fez um gesto apontando para os pais, quase se desculpando por não chegar mais perto.
– Este é o lado belo do amor – disse. – O amor que desafia, o amor por dois estranhos mais velhos que vieram de longe, e amanhã já partirão por um caminho que ela também gostaria de percorrer. O amor que prefere a aventura.
Em seguida, continuou, apontando para um casal de velhos:
- Veja aqueles dois: não se deixaram contagiar pela hipocrisia, como muitos outros. Pela aparência deve ser um casal de lavradores: a fome e a necessidade os obrigou a superarem juntos muitas dificuldades. Descobriram a força do amor através do trabalho, que é onde Eros mostra sua face mais bela, também conhecida como Philos.
– O que é Philos?
– Philos é o Amor sobre a forma de amizade. É aquilo que eu sinto por você e pelos outros. Quando a chama de Eros não consegue mais brilhar, é Philos que mantém os casais juntos.
– E Ágape?
– Ágape é o amor total, o amor que devora quem o experimenta. Quem conhece e experimenta Ágape, vê que nada mais neste mundo tem importância, apenas amar. Este foi o amor que Jesus sentiu pela humanidade, e foi tão grande que sacudiu as estrelas e mudou o curso da história do homem.
“Durante os milênios da história da Civilização, muitas pessoas foram tomadas por este Amor Que Devora. Elas tinham tanto para dar – e o mundo exigia tão pouco – que foram obrigadas a buscar os desertos e lugares isolados, porque o Amor era tão grande que as transfigurava. Viraram os santos ermitões que hoje nós conhecemos.
“Para mim e para você, que experimentamos outra forma de Ágape, esta vida aqui pode parecer dura, terrível. Entretanto, o Amor que Devora faz com que tudo perca a importância: estes homens vivem apenas para serem consumidos pelo seu Amor.”
Deu um pausa.
– Ágape é o Amor que Devora – repetiu mais uma vez, como se esta fosse a frase que melhor definisse aquela estranha espécie de amor. – Luther King certa vez disse que, quando Cristo falou de amar os inimigos, estava referindo-se à Ágape. Porque, segundo ele, era “impossível gostar de nossos inimigos, daqueles que nos fazem mal, e que tentam amesquinhar mais o nosso sofrido dia-a-dia.”
“Mas Ágape é muito mais que gostar. É um sentimento que invade tudo, que preenche todas as frestas, e faz com que qualquer tentativa de agressão se torne pó.
“ Existem duas formas de Ágape. Uma é o isolamento, a vida dedicada apenas à contemplação. A outra é exatamente o contrário: o contacto com os outros seres humanos, e o entusiasmo, o sentido sagrado do trabalho. Entusiasmo significa transe, arrebatamento, ligação com Deus. O Entusiasmo é Ágape dirigido a alguma idéia, alguma coisa.
“Quando amamos e acreditamos do fundo de nossa alma em algo, nos sentimos mais fortes que o mundo, e somos tomados de uma serenidade que vem da certeza de que nada poderá vencer nossa fé. Esta força estranha faz com que sempre tomemos as decisões certas, na hora exata, e ficamos surpresos com nossa própria capacidade quando atingimos o nosso objetivo.
“O Entusiasmo se manifesta normalmente com todo o seu poder nos primeiros anos de nossas vidas. Ainda temos um laço forte com a divindade, e nos atiramos com tal vontade aos nossos brinquedos, que as bonecas passam a ter vida e os soldadinhos de chumbo conseguem marchar. Quando Jesus falou que era das crianças o reino dos Céus, ele se referia a Ágape sob a forma de Entusiasmo. As crianças chegaram até ele sem ligar para seus milagres, sua sabedoria, os fariseus e os apóstolos. Vinham alegres, movidas pelo Entusiasmo.
“Que em momento algum, pelo resto deste ano, e pelo resto de sua vida, você perca o entusiasmo: ele é uma força maior, voltada para a vitória final. Não se pode deixar que ele escape por nossos dedos só porque nos enfrentamos, no decorrer dos meses, com pequenas e necessárias derrotas”.
Paulo Coelho
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- Fonte: Guerreiro da Luz Online, publicação de www.paulocoelho.com.br
domingo, 27 de julho de 2008
sábado, 19 de julho de 2008
Trinta e dois
"Deus transforma-lo a partir de um sentimento para o outro e ensina por meio de opostos, de modo que você terá duas asas para voar, e não uma."
Rumi
Rumi
Trinta e um
Sentir primeiro, pensar depois
Perdoar primeiro, julgar depois
Amar primeiro, educar depois
Esquecer primeiro, aprender depois
Libertar primeiro, ensinar depois
Alimentar primeiro, cantar depois
Possuir primeiro, contemplar depois
Agir primeiro, julgar depois
Navegar primeiro, aportar depois
Viver primeiro, morrer depois
Mário Quintana
Perdoar primeiro, julgar depois
Amar primeiro, educar depois
Esquecer primeiro, aprender depois
Libertar primeiro, ensinar depois
Alimentar primeiro, cantar depois
Possuir primeiro, contemplar depois
Agir primeiro, julgar depois
Navegar primeiro, aportar depois
Viver primeiro, morrer depois
Mário Quintana
sexta-feira, 11 de julho de 2008
Trinta
"Um homem que não se inclina perante coisa alguma jamais pode suportar a carga de si mesmo."
Dostoievsky, The Possessed ("Os possessos")
Dostoievsky, The Possessed ("Os possessos")
Vinte e nove
Máximas e preceitos dos "Sete Sábios"
A ignorância é intolerável - Tales
Seja moderado na prosperidade e prudente na adversidade - Periandro
Saiba qual o momento oportuno - Pítaco
Os homens são maus em sua maioria - Bias
A moderação é melhor - Cleóbulo
Está apto a comandar quem aprendeu a obedecer - Sólon
Conheça-se a si mesmo - Quílon
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Seja moderado na prosperidade e prudente na adversidade - Periandro
Saiba qual o momento oportuno - Pítaco
Os homens são maus em sua maioria - Bias
A moderação é melhor - Cleóbulo
Está apto a comandar quem aprendeu a obedecer - Sólon
Conheça-se a si mesmo - Quílon
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- Fonte: RIBEIRO JR., W.A. Septem Sapientes :: Sententiae et Apophthegmata selecta. Portal Graecia Antiqua, São Carlos. Disponível em http://greciantiga.org/fil/gr/fil04.asp. Data da consulta: 11.07.2008.
sexta-feira, 4 de julho de 2008
Vinte e oito
Iniciação
Não dormes sob os ciprestes,
Pois não há sono no mundo.
......
O corpo é a sombra das vestes
Que encobrem teu ser profundo.
Vem a noite, que é a morte
E a sombra acabou sem ser.
Vais na noite só recorte,
Igual a ti sem querer.
Mas na Estalagem do Assombro
Tiram-te os Anjos a capa.
Segues sem capa no ombro,
Com o pouco que te tapa.
Então Arcanjos da Estrada
Despem-te e deixam-te nu.
Não tens vestes, não tens nada:
Tens só teu corpo, que és tu.
Por fim, na funda caverna,
Os Deuses despem-te mais.
Teu corpo cessa, alma externa,
Mas vês que são teus iguais.
......
A sombra das tuas vestes
Ficou entre nós na Sorte.
Não estás morto, entre ciprestes.
......
Neófito, não há morte.
Fernando Pessoa
Não dormes sob os ciprestes,
Pois não há sono no mundo.
......
O corpo é a sombra das vestes
Que encobrem teu ser profundo.
Vem a noite, que é a morte
E a sombra acabou sem ser.
Vais na noite só recorte,
Igual a ti sem querer.
Mas na Estalagem do Assombro
Tiram-te os Anjos a capa.
Segues sem capa no ombro,
Com o pouco que te tapa.
Então Arcanjos da Estrada
Despem-te e deixam-te nu.
Não tens vestes, não tens nada:
Tens só teu corpo, que és tu.
Por fim, na funda caverna,
Os Deuses despem-te mais.
Teu corpo cessa, alma externa,
Mas vês que são teus iguais.
......
A sombra das tuas vestes
Ficou entre nós na Sorte.
Não estás morto, entre ciprestes.
......
Neófito, não há morte.
Fernando Pessoa
segunda-feira, 30 de junho de 2008
Vinte e sete
"No que se refere à evolução, é indispensável, desde o início, convencer-se plenamente de que não há evolução mecânica possível. A evolução do homem é a evolução de sua consciência. E a 'consciência' não pode evoluir inconscientemente. A evolução do homem é a evolução de sua vontade e a 'vontade' não pode evoluir involuntariamente. A evolução do homem é a evolução de seu poder de 'fazer' e 'fazer' não pode ser o resultado do que acontece."
G.I. Gurdjieff
G.I. Gurdjieff
quinta-feira, 26 de junho de 2008
Vinte e seis
"No céu da paz divina um corpo ingente
Gira: em sua virtude está guardado
O ser de quanto é ele o continente.
O céu seguinte, de astros marchetado,
Aquele ser reparte por essências
Distintas, mas que tem nele encerrado.
Os outros céus, por várias influências,
Distinções que contêm, dispõe, lhes dando
Quanto serve aos seus fins e conseqüências.
Esses órgãos do mundo (estás notando)
Seguem, pois, gradação, que não varia;
Vêm de cima os que abaixo vão passando.
Comprendes já como é segura a via,
Por onde ir à verdade desejada:
Depois o vau tu passarás sem guia.
Deve aos santos motores imputada
Ser, como ao fabro o efeito do martelo,
Dos céus a ação, desta arte revelada.
E o céu, que tantos lumes fazem belo,
Do Ser Supremo, que no espaço o agita.
A imagem toma e a insculpe como selo.
E como alma, que a humana argila habita,
Por diferentes membros atuando,
Faculdades diversas exercita,
A Inteligência assim multiplicando
Dos astros nos milhões sua bondade,
Sobre a Unidade sua vês girando.
Cada virtude, em sua variedade,
A cada precioso corpo é unida
A que dá, como em vós vitalidade.
A virtude, em tais corpos infundida
Refulge, de um ser ledo procedente
Qual ledice em pupila refletida.
Daí vem que uma luz de outra é diferente,
Não por efeito do que é denso e raro:
Esse é formal princípio eficiente
Conforme a sua ação o turvo e o claro."
Dante Aliguieri, A Divina Comédia: Paraíso - Canto II
Gira: em sua virtude está guardado
O ser de quanto é ele o continente.
O céu seguinte, de astros marchetado,
Aquele ser reparte por essências
Distintas, mas que tem nele encerrado.
Os outros céus, por várias influências,
Distinções que contêm, dispõe, lhes dando
Quanto serve aos seus fins e conseqüências.
Esses órgãos do mundo (estás notando)
Seguem, pois, gradação, que não varia;
Vêm de cima os que abaixo vão passando.
Comprendes já como é segura a via,
Por onde ir à verdade desejada:
Depois o vau tu passarás sem guia.
Deve aos santos motores imputada
Ser, como ao fabro o efeito do martelo,
Dos céus a ação, desta arte revelada.
E o céu, que tantos lumes fazem belo,
Do Ser Supremo, que no espaço o agita.
A imagem toma e a insculpe como selo.
E como alma, que a humana argila habita,
Por diferentes membros atuando,
Faculdades diversas exercita,
A Inteligência assim multiplicando
Dos astros nos milhões sua bondade,
Sobre a Unidade sua vês girando.
Cada virtude, em sua variedade,
A cada precioso corpo é unida
A que dá, como em vós vitalidade.
A virtude, em tais corpos infundida
Refulge, de um ser ledo procedente
Qual ledice em pupila refletida.
Daí vem que uma luz de outra é diferente,
Não por efeito do que é denso e raro:
Esse é formal princípio eficiente
Conforme a sua ação o turvo e o claro."
Dante Aliguieri, A Divina Comédia: Paraíso - Canto II
sexta-feira, 20 de junho de 2008
Vinte e cinco
Marcos, 7:1-23 - Bíblia Ave Maria
1.Os fariseus e alguns dos escribas vindos de Jerusalém tinham sereunido em torno dele.
2.E perceberam que alguns dos seus discípulos comiam o pão com as mãos impuras, isto é, sem as lavar.
3.(Com efeito, os fariseus e todos os judeus, apegando-se à tradição dos antigos, não comem sem lavar cuidadosamente as mãos;
4.e, quando voltam do mercado, não comem sem ter feito abluções. E há muitos outros costumes que observam por tradição, como lavar os copos, os jarros e os pratos de metal.)
5.Os fariseus e os escribas perguntaram-lhe: Por que não andam os teus discípulos conforme a tradição dos antigos, mas comem o pão com as mãos impuras?
6.Jesus disse-lhes: Isaías com muita razão profetizou de vós, hipócritas, quando escreveu: Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim.
7.Em vão, pois, me cultuam, porque ensinam doutrinas e preceitos humanos (29,13).
8.Deixando o mandamento de Deus, vos apegais à tradição dos homens.
9.E Jesus acrescentou: Na realidade, invalidais o mandamento de Deus para estabelecer a vossa tradição.
10.Pois Moisés disse: Honra teu pai e tua mãe; e: Todo aquele que amaldiçoar pai ou mãe seja morto.
11.Vós, porém, dizeis: Se alguém disser ao pai ou à mãe: Qualquer coisa que de minha parte te pudesse ser útil é corban, isto é, oferta,
12.e já não lhe deixais fazer coisa alguma a favor de seu pai ou de sua mãe,
13.anulando a palavra de Deus por vossa tradição que vós vos transmitistes. E fazeis ainda muitas coisas semelhantes.
14.Tendo chamado de novo a turba, dizia-lhes: Ouvi-me todos, e entendei.
15.Nada há fora do homem que, entrando nele, o possa manchar; mas o que sai do homem, isso é que mancha o homem.
16.[bom entendedor meia palavra basta.]
17.Quando deixou o povo e entrou em casa, os seus discípulos perguntaram-lhe acerca da parábola.
18.Respondeu-lhes: Sois também vós assim ignorantes? Não compreendeis que tudo o que de fora entra no homem não o pode tornar impuro,
19.porque não lhe entra no coração, mas vai ao ventre e dali segue sua lei natural? Assim ele declarava puros todos os alimentos. E acrescentava:
20.Ora, o que sai do homem, isso é que mancha o homem.
21.Porque é do interior do coração dos homens que procedem os maus pensamentos: devassidões, roubos, assassinatos,
22.adultérios, cobiças, perversidades, fraudes, desonestidade, inveja, difamação, orgulho e insensatez.
23.Todos estes vícios procedem de dentro e tornam impuro o homem.
1.Os fariseus e alguns dos escribas vindos de Jerusalém tinham sereunido em torno dele.
2.E perceberam que alguns dos seus discípulos comiam o pão com as mãos impuras, isto é, sem as lavar.
3.(Com efeito, os fariseus e todos os judeus, apegando-se à tradição dos antigos, não comem sem lavar cuidadosamente as mãos;
4.e, quando voltam do mercado, não comem sem ter feito abluções. E há muitos outros costumes que observam por tradição, como lavar os copos, os jarros e os pratos de metal.)
5.Os fariseus e os escribas perguntaram-lhe: Por que não andam os teus discípulos conforme a tradição dos antigos, mas comem o pão com as mãos impuras?
6.Jesus disse-lhes: Isaías com muita razão profetizou de vós, hipócritas, quando escreveu: Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim.
7.Em vão, pois, me cultuam, porque ensinam doutrinas e preceitos humanos (29,13).
8.Deixando o mandamento de Deus, vos apegais à tradição dos homens.
9.E Jesus acrescentou: Na realidade, invalidais o mandamento de Deus para estabelecer a vossa tradição.
10.Pois Moisés disse: Honra teu pai e tua mãe; e: Todo aquele que amaldiçoar pai ou mãe seja morto.
11.Vós, porém, dizeis: Se alguém disser ao pai ou à mãe: Qualquer coisa que de minha parte te pudesse ser útil é corban, isto é, oferta,
12.e já não lhe deixais fazer coisa alguma a favor de seu pai ou de sua mãe,
13.anulando a palavra de Deus por vossa tradição que vós vos transmitistes. E fazeis ainda muitas coisas semelhantes.
14.Tendo chamado de novo a turba, dizia-lhes: Ouvi-me todos, e entendei.
15.Nada há fora do homem que, entrando nele, o possa manchar; mas o que sai do homem, isso é que mancha o homem.
16.[bom entendedor meia palavra basta.]
17.Quando deixou o povo e entrou em casa, os seus discípulos perguntaram-lhe acerca da parábola.
18.Respondeu-lhes: Sois também vós assim ignorantes? Não compreendeis que tudo o que de fora entra no homem não o pode tornar impuro,
19.porque não lhe entra no coração, mas vai ao ventre e dali segue sua lei natural? Assim ele declarava puros todos os alimentos. E acrescentava:
20.Ora, o que sai do homem, isso é que mancha o homem.
21.Porque é do interior do coração dos homens que procedem os maus pensamentos: devassidões, roubos, assassinatos,
22.adultérios, cobiças, perversidades, fraudes, desonestidade, inveja, difamação, orgulho e insensatez.
23.Todos estes vícios procedem de dentro e tornam impuro o homem.
domingo, 8 de junho de 2008
Vinte e quatro
O Amor é a Una Verdade que ninguém vê,
por sermos nós mesmos tão múltiplos
É um estado de tamanha "nulidade"
Que sempre passará desapercebido pelo tamanho (milhares faces) do Ego
Detruímos por medo
Abandonamos por Orgulho
E sentimos só pelo Egoísmo
Cada conflito, gera o estado de desejo
onde a busca do alívio é a meta...
mas Desejo é uma idéia...
e portanto vulnerável as influências externas....
e assim nunca saciável
Amar é Ser, portanto instala-se a Paz
de agir em Comunhão
com Aquele que AMA sem cessar.
Lu
por sermos nós mesmos tão múltiplos
É um estado de tamanha "nulidade"
Que sempre passará desapercebido pelo tamanho (milhares faces) do Ego
Detruímos por medo
Abandonamos por Orgulho
E sentimos só pelo Egoísmo
Cada conflito, gera o estado de desejo
onde a busca do alívio é a meta...
mas Desejo é uma idéia...
e portanto vulnerável as influências externas....
e assim nunca saciável
Amar é Ser, portanto instala-se a Paz
de agir em Comunhão
com Aquele que AMA sem cessar.
Lu
segunda-feira, 12 de maio de 2008
Vinte e três
"As verdades esperam em todas as coisas,
Não apressam sua emissão nem a ela resistem,
Não precisam do fórceps obstétrico do cirurgião,
O insignificante é tão grande quanto o resto,
O que é maior ou menor que um toque?"
Walt Whitman
Não apressam sua emissão nem a ela resistem,
Não precisam do fórceps obstétrico do cirurgião,
O insignificante é tão grande quanto o resto,
O que é maior ou menor que um toque?"
Walt Whitman
domingo, 11 de maio de 2008
Vinte e dois
Letter 1
"To the Princess of the Elephants.
I disappeared exactly one year ago today. On that day I received a letter. It called me back to the place where my life with the elephants began.
Please forgive me, for the silence between us has been unbroken for one year.
This letter breaks that silence. It marks the first of my three hundred and sixty-five letters to you, one for each day of silence.
I will never be more myself than in these letters.
They are my maps of the bird path, and they are all that I know to be true."
***
Letter 7
"In the beginning of time, the skies were filled with flying elephants. Too heavy for their wings, they sometimes crashed through the trees and frightened other animals.
All the flying grey elephants migrated to the source of the Ganges. They agreed to renounce their wings and settle on the earth. When they molted, millions of wings fell to the earth, the snow covered them, and the Himalayas were born.
The blue elephants landed in the sea and their wings became fins. They are whales, the trunkless elephants of the oceans. Their cousins are the manatees, the trunkless elephants of the rivers.
The chameleon elephants kept their wings but agreed never again to land on the earth. They change the colors of their feathers every day. Today they are azure, and when it rains they are the color of pearls.
When they go to sleep, the chameleon elephants always lie down in the same place in the sky and dream with one eye open. The stars you see at night are the unblinking eyes of sleeping elephants, who sleep with one eye open to best keep watch over us."
***
Letter 68
"A pod of whales was lying like long recycling Buddhas on the sea.
My sister and I put our ears to the bottom of the boat so we could listen to their songs.
We turned to my grandfather and asked, 'What do their songs mean?'
'The whales do not sing because they have an answer,' he said.
'They sing because they have a song.'"
***
Letter 74
"I still have the first letter that you wrote to me. I carry it like a garden in my pocket.
If you come to me at this moment
Your minutes will become hours
Your hours will become days
And your days will become a lifetime.
I am never sure if I am reading the letter or if the letter is reading me."
***
"I saw promises I did not keep
...
wounds I did not heal
...
tears I did not share
...
lovers I left behinde
...
dreams I did not live.
I saw all that was offered to me that I could not accept.
I saw the letters I wished for but never received.
I saw all that could have been
but never will be."
***
Letter 77
"Man has been walking the earth for millions of years, but the first letter was written only six thousand years ago... Who was the man or woman who finally decided that the tongue was not enough? ... Were they trying to restore the sacredness of words by writing them down? ... Now, thousands of years after the first letter was written, the purity of written words has almost completely perished... Maybe there is a way to speak to you through the lens of my camera about a world without words."
***
Letter 84
"An elephant with his trunk raised is a ladder to the stars.
A breaching whale is a ladder to the bottom of the sea.
My photographs are a ladder to my dreams.
These letters are ladders to you."
***
Letter 86
"My imagined edens have no words. Images, unlike words, can speak of silence without breaking it... The subject's eyes are closed in the images of my books of eden... Only when the eyes are looking inward can you see the edens within."
***
Letter 88
"I'm struggling in relearning what I knew as a child that enabled me to see animals with clear eyes. Without that clarity even my ears seem to miss much of the sublime music of nature... What a lonely species we have become.
The longer I watch the savannah elephants,
the more I listen,
the more I open.
They remind me of who I am...
May the guardian elephants hear my wish to collaborate with all the musicians of nature's orchestra.
I want to join the dance that has no steps.
I want to become the Dance."
***
Letter 184
"A compass and a pen can give you a reading on the lay of the river, but no mechanical instrument can measure the motion of the heart... One day, when you have crossed your last river, you will stand before an elephant who will measure the value of your life not by how many miles you have traveled and how much you have seen, but rather by how much you have loved."
***
Letter 239
"When I look up at the sky, I see the eyes of flying elephants.
They all have one name.
Wonder."
***
Letter 362
"The fate of all birds is to fall, but the phoenix is the only bird that transcends her own death...
The fate of man is to fall, but some find a way to transcend their deaths. In this brief moment on earth, they succeeded in singing their song. The list of human birds of phoenix is long: [ ... ]
There are millions of men and women who are also birds of phoenix, whose stories are unknown... but whether they are known or unknown, man or elephant, all phoenixes share the same dance:
Feather to Fire
Fire to Blood
Blood to Bone
Bone to Marrow
Marrow to Ashes
Ashes to Snow."
***
"...what matters is not what is written on the page
what matters is what is written in the heart..."
"Ashes and Snow: A Novel in Letters", by Gregory Colbert
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"To the Princess of the Elephants.
I disappeared exactly one year ago today. On that day I received a letter. It called me back to the place where my life with the elephants began.
Please forgive me, for the silence between us has been unbroken for one year.
This letter breaks that silence. It marks the first of my three hundred and sixty-five letters to you, one for each day of silence.
I will never be more myself than in these letters.
They are my maps of the bird path, and they are all that I know to be true."
***
Letter 7
"In the beginning of time, the skies were filled with flying elephants. Too heavy for their wings, they sometimes crashed through the trees and frightened other animals.
All the flying grey elephants migrated to the source of the Ganges. They agreed to renounce their wings and settle on the earth. When they molted, millions of wings fell to the earth, the snow covered them, and the Himalayas were born.
The blue elephants landed in the sea and their wings became fins. They are whales, the trunkless elephants of the oceans. Their cousins are the manatees, the trunkless elephants of the rivers.
The chameleon elephants kept their wings but agreed never again to land on the earth. They change the colors of their feathers every day. Today they are azure, and when it rains they are the color of pearls.
When they go to sleep, the chameleon elephants always lie down in the same place in the sky and dream with one eye open. The stars you see at night are the unblinking eyes of sleeping elephants, who sleep with one eye open to best keep watch over us."
***
Letter 68
"A pod of whales was lying like long recycling Buddhas on the sea.
My sister and I put our ears to the bottom of the boat so we could listen to their songs.
We turned to my grandfather and asked, 'What do their songs mean?'
'The whales do not sing because they have an answer,' he said.
'They sing because they have a song.'"
***
Letter 74
"I still have the first letter that you wrote to me. I carry it like a garden in my pocket.
If you come to me at this moment
Your minutes will become hours
Your hours will become days
And your days will become a lifetime.
I am never sure if I am reading the letter or if the letter is reading me."
***
"I saw promises I did not keep
...
wounds I did not heal
...
tears I did not share
...
lovers I left behinde
...
dreams I did not live.
I saw all that was offered to me that I could not accept.
I saw the letters I wished for but never received.
I saw all that could have been
but never will be."
***
Letter 77
"Man has been walking the earth for millions of years, but the first letter was written only six thousand years ago... Who was the man or woman who finally decided that the tongue was not enough? ... Were they trying to restore the sacredness of words by writing them down? ... Now, thousands of years after the first letter was written, the purity of written words has almost completely perished... Maybe there is a way to speak to you through the lens of my camera about a world without words."
***
Letter 84
"An elephant with his trunk raised is a ladder to the stars.
A breaching whale is a ladder to the bottom of the sea.
My photographs are a ladder to my dreams.
These letters are ladders to you."
***
Letter 86
"My imagined edens have no words. Images, unlike words, can speak of silence without breaking it... The subject's eyes are closed in the images of my books of eden... Only when the eyes are looking inward can you see the edens within."
***
Letter 88
"I'm struggling in relearning what I knew as a child that enabled me to see animals with clear eyes. Without that clarity even my ears seem to miss much of the sublime music of nature... What a lonely species we have become.
The longer I watch the savannah elephants,
the more I listen,
the more I open.
They remind me of who I am...
May the guardian elephants hear my wish to collaborate with all the musicians of nature's orchestra.
I want to join the dance that has no steps.
I want to become the Dance."
***
Letter 184
"A compass and a pen can give you a reading on the lay of the river, but no mechanical instrument can measure the motion of the heart... One day, when you have crossed your last river, you will stand before an elephant who will measure the value of your life not by how many miles you have traveled and how much you have seen, but rather by how much you have loved."
***
Letter 239
"When I look up at the sky, I see the eyes of flying elephants.
They all have one name.
Wonder."
***
Letter 362
"The fate of all birds is to fall, but the phoenix is the only bird that transcends her own death...
The fate of man is to fall, but some find a way to transcend their deaths. In this brief moment on earth, they succeeded in singing their song. The list of human birds of phoenix is long: [ ... ]
There are millions of men and women who are also birds of phoenix, whose stories are unknown... but whether they are known or unknown, man or elephant, all phoenixes share the same dance:
Feather to Fire
Fire to Blood
Blood to Bone
Bone to Marrow
Marrow to Ashes
Ashes to Snow."
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"...what matters is not what is written on the page
what matters is what is written in the heart..."
"Ashes and Snow: A Novel in Letters", by Gregory Colbert
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- Notas sobre o post: 1) neste caso optei pelo idioma original, não tendo a mão tradução em nosso português, e não posso confirmar se se trada do texto na íntegra, contudo, aqui o disponho... 2) sugiro como complemento a leitura uma visita ao site www.ashesandsnow.org, e também ao vídeo promocional www.youtube.com/watch?v=gSX444hQ5Vo
quinta-feira, 1 de maio de 2008
Vinte e um
O Ermitão
Durante o reinado do rei Mabdar viveu na Babilônia um jovem chamado Zadig. Era formoso, rico e naturalmente de bom coração. No momento em que esta história começa ele estava viajando a pé para ver o mundo e aprender filosofia e sabedoria.
Mas até esse momento tinha encontrado tanta miséria e suportado tantos e terríveis desastres que estava tentado a rebelar-se contra a vontade do céu e acreditar que a Providência, que rege o mundo, desdenhava o Bem e permitia que o Mal prosperasse. Neste triste estado de espírito estava ele caminhando um dia às margens do Eufrates. Por casualidade encontrou um venerável ermitão cuja barba, branca como a neve, descia até a cintura. Em sua mão o ancião levava um rolo de pergaminho que lia com atenção. Zadig parou e fez-lhe uma reverência. O ermitão devolveu-lhe a saudação com um ar tão bondoso e tão nobre que Zadig sentiu curiosidade de falar com ele. Perguntou-lhe então o que ele estava lendo:
- É o Livro do Destino - disse o ermitão. - Você gostaria de ler este livro?
Entregou o livro a Zadig, mas este, apesar de conhecer uma dezena de línguas, não pode entender uma só palavra do livro.
Sua curiosidade foi aumentando.
- Você parece ter problemas... - disse o bondoso ermitão.
- Sim, infelizmente tenho - disse Zadig. - E tenho razões para estar assim.
- Se me permite - disse o ancião, - eu o acompanharei. Quem sabe poderei ser-lhe útil. `As vezes sou capaz de consolar os aflitos.
Zadig sentiu um profundo respeito pela aparência, a barba branca e o pergaminho misterioso do velho ermitão, e percebeu que a conversa dele era a de uma mente superior. O velho falou do destino, da justiça, da moral, do principal bem na vida, da debilidade humana, da virtude e do vício, com tal poder de eloqüência que Zadig se sentiu atraído por uma espécie de encanto, e suplicou ao eremita que não o deixasse até que regressassem à Babilônia.
- Peço-lhe o mesmo favor - disse o ermitão. - Prometa-me que, haja o que houver, você permanecerá em minha companhia por alguns dias.
Zadig prometeu, e juntos se puseram em marcha.
Naquela noite os viajantes chegaram a uma grande mansão. O eremita pediu comida e alojamento para ele e seu companheiro. O porteiro, que poderia ser confundido com um príncipe, os introduziu com um desdenhoso ar de boas-vindas. O chefe dos serventes lhe mostrou os magníficos aposentos, e então lhes foi permitido sentar-se em um canto da mesa, na qual estava o senhor da mansão, que nem se deu ao trabalho de olhá-los. Mesmo assim, iguarias em abundância lhes foram servidas, e depois de cear lavaram as mãos em uma bacia de ouro incrustada com esmeraldas e rubis. Foram então levados para passar a noite em um formoso aposento. Na manhã seguinte, antes de deixarem o castelo, um servente trouxe uma peça de ouro para cada um.
- O senhor da casa - disse Zadig quando estavam caminhando - parece ser um homem generoso, ainda que um pouco arrogante, e pratica uma nobre hospitalidade.
Enquanto falava com ele se deu conta de que uma espécie de bolsa grande que o eremita levava parecia agora abarrotada. Dentro dela estava a bacia de ouro incrustada de pedras preciosas que o velho havia furtado. Zadig ficou pasmo, mas não disse nada.
Ao meio-dia o eremita parou em frente a uma pequena casa onde vivia um rico avarento e, mais uma vez pediu hospedagem. Um velho criado, usando um puído casaco, os recebeu muito grosseiramente, acomodou-os no estábulo e pôs diante deles umas poucas azeitonas meio estragadas, uns pedaços de pão dormido e cerveja muito amarga.
O ermitão comeu e bebeu com o mesmo prazer que tivera na noite anterior. Quando terminaram o ermitão se dirigiu ao criado, que não havia tirado os olhos deles para assegurar-se de que nada roubariam, deu-lhe as duas peças de ouro que haviam recebido naquela manhã e agradeceu a sua atenção, acrescentando:
- Tenha a bondade de permitir que eu veja seu amo.
O atônito servo os conduziu para dentro da casa.
- Poderosíssimo senhor - disse o ermitão, - eu gostaria de apresentar meus humildes agradecimentos pela nobre maneira com que nos recebeu. Eu suplico que aceite esta bacia de ouro como demonstração de minha gratidão.
O miserável avarento quase caiu da cadeira, de tão assombrado que ficou. O ermitão, sem esperar que ele se recobrasse, retirou-se rapidamente com seu companheiro.
- Santo Pai - disse Zadig, - o que significa tudo isso? Para mim você não se parece em nada aos outros homens. Você rouba uma bacia de ouro com jóias de um senhor que nos recebe magnificamente e a dá a um tacanho que o trata indignamente.
- Meu filho - replicou o ermitão, - esse poderoso senhor que só recebe os viajantes por vaidade e para ostentar suas riquezas de agora em diante se fará mais sábio, e, por outro lado, o miserável será ensinado a praticar a hospitalidade. Não se espante com nada, e siga-me.
Zadig não sabia se estava tratando com o mais sábio ou com o mais tolo dos homens. Mas o ermitão falou com tal convicção que Zadig, preso a sua promessa, não teve outra escolha senão seguí-lo.
Nessa noite chegaram a uma casa agradável, de aspecto simples, que não mostrava sinais de fartura nem de avareza. O dono era um filósofo que havia abandonado o mundo e estudava, pacificamente, as leis da virtude e da sabedoria. Era um homem feliz e contente. Ele havia criado esse calmo refúgio para seu prazer e nele recebeu os estrangeiros com uma generosidade que não mostrava sinais de ostentação. Ele mesmo os conduziu a um quarto confortável, onde os fez descansar alguns instantes, e então veio buscá-los para servir-lhes uma delicada ceia.
Nas conversas que mantiveram entre si, concordaram que os assuntos deste mundo nem sempre eram regulados pelas opiniões dos homens mais sábios. O ermitão, por sua parte, sustentava que os caminhos da Providência estavam envoltos em mistério e que os homens faziam mal em emitir julgamento sobre um universo do qual só conheciam uma parte muito pequena. Zadig se perguntava como uma pessoa que cometia atos tão loucos podia pensar tão corretamente.
Finalmente, depois de uma conversa tão agradável quanto instrutiva, o anfitrião conduziu os viajantes a seus quartos e agradeceu ao céu por enviar dois visitantes tão sábios e virtuosos.
Ofereceu-lhes algum dinheiro, mas o fez com tanta franqueza que eles não puderam se sentir ofendidos. O velho recusou e se despediu, pois desejava partir para a Babilônia ao nascer do dia. Separaram-se em tom cordial, e Zadig estava cheio de agradáveis sentimentos por um homem tão amistoso.
Enquanto estavam em seu quarto, Zadig e o ermitão passaram algum tempo elogiando o anfitrião. Ao amanhecer o ancião despertou seu companheiro, dizendo:
- Devemos ir. Mas enquanto todos ainda estão dormindo desejo deixar a este digno homem um sinal de minha estima.
Com estas palavras, pegou uma tocha e deitou fogo à casa.
Zadig começou a gritar horrorizado e teria impedido esse terrível ato, mas o ermitão, com uma força superior, o deteve. A casa se tornou uma fogueira, e o velho, que agora estava bem longe com seu companheiro, olhou calmamente para a pilha fumegante.
- O céu seja louvado! - gritou. - A casa de nosso amável anfitrião está destruída de ponta a ponta!
Ao ouvir estas palavras, Zadig não sabia se chorava ou se ria; se chamava o venerável de velhaco, se o golpeava ou se corria para longe dali, mas ele não fez nenhuma destas coisas. Ainda subjugado pela aparência superior do ermitão, seguiu-o contra sua própria vontade até a hospedagem seguinte. Desta vez chegaram à residência de uma boa e caridosa viúva que tinha um sobrinho de 14 anos, sua única esperança e alegria. Ela fez tudo o que pode pelos viajantes.
Na manhã seguinte pediu a seu sobrinho que os guiasse na travessia de uma certa ponte em ruínas, perigosa de se cruzar. O jovem os conduziu, ansioso por agradá-los.
- Venha - disse o eremita, quando eles estavam no meio da ponte, - devo mostrar minha gratidão para com sua tia.
Enquanto falava, ele pegou o jovem pelos cabelos e o atirou no rio.
O jovem caiu, reapareceu por um instante na superfície da água e logo foi tragado pele corrente.
- Oh, monstro! - exclamou Zadig. - Você é o mais detestável dos homens!
- Você me prometeu ter mais paciência - interrompeu o velho. - Escute!
Embaixo das ruínas daquela casa que a Providência achou conveniente por em chamas, o dono descobrirá um enorme tesouro; enquanto o jovem, cuja existência a Providência cortou, teria matado a tia em um ano e a você em dois anos.
- Quem lhe disse isto, bárbaro? - gritou Zadig. - Ainda que você tenha lido isso no Livro do Destino, quem lhe deu poder para afogar um jovem que nunca lhe fez nada?
Enquanto falava, Zadig viu que o ancião já não tinha mais barba e que seu rosto tinha se tornado jovem e belo. Seu traje de eremita havia desaparecido, quatro asas brancas cobriam a sua majestosa forma e brilhavam com ofuscante esplendor.
- Anjo do Céu! - gritou Zadig. - Você então desceu do céu para ensinar a um mortal extraviado a submeter-se às leis eternas?
- Os homens - replicou o anjo Jezrael - julgam todas as coisas sem conhecimento, e você é, de todos os homens, o mais merecedor de ser esclarecido. O mundo imagina que o jovem que acaba de perecer caiu por acidente na água e que a casa do filósofo se incendiou por acaso.
Mas a causalidade não existe: tudo é prova, castigo ou profecia.
Frágil mortal! Pare de questionar e de se rebelar contra o que você deveria adorar!
Depois de dizer estas palavras, o anjo alçou vôo até o céu e Zadig se prostrou ajoelhado.
Durante o reinado do rei Mabdar viveu na Babilônia um jovem chamado Zadig. Era formoso, rico e naturalmente de bom coração. No momento em que esta história começa ele estava viajando a pé para ver o mundo e aprender filosofia e sabedoria.
Mas até esse momento tinha encontrado tanta miséria e suportado tantos e terríveis desastres que estava tentado a rebelar-se contra a vontade do céu e acreditar que a Providência, que rege o mundo, desdenhava o Bem e permitia que o Mal prosperasse. Neste triste estado de espírito estava ele caminhando um dia às margens do Eufrates. Por casualidade encontrou um venerável ermitão cuja barba, branca como a neve, descia até a cintura. Em sua mão o ancião levava um rolo de pergaminho que lia com atenção. Zadig parou e fez-lhe uma reverência. O ermitão devolveu-lhe a saudação com um ar tão bondoso e tão nobre que Zadig sentiu curiosidade de falar com ele. Perguntou-lhe então o que ele estava lendo:
- É o Livro do Destino - disse o ermitão. - Você gostaria de ler este livro?
Entregou o livro a Zadig, mas este, apesar de conhecer uma dezena de línguas, não pode entender uma só palavra do livro.
Sua curiosidade foi aumentando.
- Você parece ter problemas... - disse o bondoso ermitão.
- Sim, infelizmente tenho - disse Zadig. - E tenho razões para estar assim.
- Se me permite - disse o ancião, - eu o acompanharei. Quem sabe poderei ser-lhe útil. `As vezes sou capaz de consolar os aflitos.
Zadig sentiu um profundo respeito pela aparência, a barba branca e o pergaminho misterioso do velho ermitão, e percebeu que a conversa dele era a de uma mente superior. O velho falou do destino, da justiça, da moral, do principal bem na vida, da debilidade humana, da virtude e do vício, com tal poder de eloqüência que Zadig se sentiu atraído por uma espécie de encanto, e suplicou ao eremita que não o deixasse até que regressassem à Babilônia.
- Peço-lhe o mesmo favor - disse o ermitão. - Prometa-me que, haja o que houver, você permanecerá em minha companhia por alguns dias.
Zadig prometeu, e juntos se puseram em marcha.
Naquela noite os viajantes chegaram a uma grande mansão. O eremita pediu comida e alojamento para ele e seu companheiro. O porteiro, que poderia ser confundido com um príncipe, os introduziu com um desdenhoso ar de boas-vindas. O chefe dos serventes lhe mostrou os magníficos aposentos, e então lhes foi permitido sentar-se em um canto da mesa, na qual estava o senhor da mansão, que nem se deu ao trabalho de olhá-los. Mesmo assim, iguarias em abundância lhes foram servidas, e depois de cear lavaram as mãos em uma bacia de ouro incrustada com esmeraldas e rubis. Foram então levados para passar a noite em um formoso aposento. Na manhã seguinte, antes de deixarem o castelo, um servente trouxe uma peça de ouro para cada um.
- O senhor da casa - disse Zadig quando estavam caminhando - parece ser um homem generoso, ainda que um pouco arrogante, e pratica uma nobre hospitalidade.
Enquanto falava com ele se deu conta de que uma espécie de bolsa grande que o eremita levava parecia agora abarrotada. Dentro dela estava a bacia de ouro incrustada de pedras preciosas que o velho havia furtado. Zadig ficou pasmo, mas não disse nada.
Ao meio-dia o eremita parou em frente a uma pequena casa onde vivia um rico avarento e, mais uma vez pediu hospedagem. Um velho criado, usando um puído casaco, os recebeu muito grosseiramente, acomodou-os no estábulo e pôs diante deles umas poucas azeitonas meio estragadas, uns pedaços de pão dormido e cerveja muito amarga.
O ermitão comeu e bebeu com o mesmo prazer que tivera na noite anterior. Quando terminaram o ermitão se dirigiu ao criado, que não havia tirado os olhos deles para assegurar-se de que nada roubariam, deu-lhe as duas peças de ouro que haviam recebido naquela manhã e agradeceu a sua atenção, acrescentando:
- Tenha a bondade de permitir que eu veja seu amo.
O atônito servo os conduziu para dentro da casa.
- Poderosíssimo senhor - disse o ermitão, - eu gostaria de apresentar meus humildes agradecimentos pela nobre maneira com que nos recebeu. Eu suplico que aceite esta bacia de ouro como demonstração de minha gratidão.
O miserável avarento quase caiu da cadeira, de tão assombrado que ficou. O ermitão, sem esperar que ele se recobrasse, retirou-se rapidamente com seu companheiro.
- Santo Pai - disse Zadig, - o que significa tudo isso? Para mim você não se parece em nada aos outros homens. Você rouba uma bacia de ouro com jóias de um senhor que nos recebe magnificamente e a dá a um tacanho que o trata indignamente.
- Meu filho - replicou o ermitão, - esse poderoso senhor que só recebe os viajantes por vaidade e para ostentar suas riquezas de agora em diante se fará mais sábio, e, por outro lado, o miserável será ensinado a praticar a hospitalidade. Não se espante com nada, e siga-me.
Zadig não sabia se estava tratando com o mais sábio ou com o mais tolo dos homens. Mas o ermitão falou com tal convicção que Zadig, preso a sua promessa, não teve outra escolha senão seguí-lo.
Nessa noite chegaram a uma casa agradável, de aspecto simples, que não mostrava sinais de fartura nem de avareza. O dono era um filósofo que havia abandonado o mundo e estudava, pacificamente, as leis da virtude e da sabedoria. Era um homem feliz e contente. Ele havia criado esse calmo refúgio para seu prazer e nele recebeu os estrangeiros com uma generosidade que não mostrava sinais de ostentação. Ele mesmo os conduziu a um quarto confortável, onde os fez descansar alguns instantes, e então veio buscá-los para servir-lhes uma delicada ceia.
Nas conversas que mantiveram entre si, concordaram que os assuntos deste mundo nem sempre eram regulados pelas opiniões dos homens mais sábios. O ermitão, por sua parte, sustentava que os caminhos da Providência estavam envoltos em mistério e que os homens faziam mal em emitir julgamento sobre um universo do qual só conheciam uma parte muito pequena. Zadig se perguntava como uma pessoa que cometia atos tão loucos podia pensar tão corretamente.
Finalmente, depois de uma conversa tão agradável quanto instrutiva, o anfitrião conduziu os viajantes a seus quartos e agradeceu ao céu por enviar dois visitantes tão sábios e virtuosos.
Ofereceu-lhes algum dinheiro, mas o fez com tanta franqueza que eles não puderam se sentir ofendidos. O velho recusou e se despediu, pois desejava partir para a Babilônia ao nascer do dia. Separaram-se em tom cordial, e Zadig estava cheio de agradáveis sentimentos por um homem tão amistoso.
Enquanto estavam em seu quarto, Zadig e o ermitão passaram algum tempo elogiando o anfitrião. Ao amanhecer o ancião despertou seu companheiro, dizendo:
- Devemos ir. Mas enquanto todos ainda estão dormindo desejo deixar a este digno homem um sinal de minha estima.
Com estas palavras, pegou uma tocha e deitou fogo à casa.
Zadig começou a gritar horrorizado e teria impedido esse terrível ato, mas o ermitão, com uma força superior, o deteve. A casa se tornou uma fogueira, e o velho, que agora estava bem longe com seu companheiro, olhou calmamente para a pilha fumegante.
- O céu seja louvado! - gritou. - A casa de nosso amável anfitrião está destruída de ponta a ponta!
Ao ouvir estas palavras, Zadig não sabia se chorava ou se ria; se chamava o venerável de velhaco, se o golpeava ou se corria para longe dali, mas ele não fez nenhuma destas coisas. Ainda subjugado pela aparência superior do ermitão, seguiu-o contra sua própria vontade até a hospedagem seguinte. Desta vez chegaram à residência de uma boa e caridosa viúva que tinha um sobrinho de 14 anos, sua única esperança e alegria. Ela fez tudo o que pode pelos viajantes.
Na manhã seguinte pediu a seu sobrinho que os guiasse na travessia de uma certa ponte em ruínas, perigosa de se cruzar. O jovem os conduziu, ansioso por agradá-los.
- Venha - disse o eremita, quando eles estavam no meio da ponte, - devo mostrar minha gratidão para com sua tia.
Enquanto falava, ele pegou o jovem pelos cabelos e o atirou no rio.
O jovem caiu, reapareceu por um instante na superfície da água e logo foi tragado pele corrente.
- Oh, monstro! - exclamou Zadig. - Você é o mais detestável dos homens!
- Você me prometeu ter mais paciência - interrompeu o velho. - Escute!
Embaixo das ruínas daquela casa que a Providência achou conveniente por em chamas, o dono descobrirá um enorme tesouro; enquanto o jovem, cuja existência a Providência cortou, teria matado a tia em um ano e a você em dois anos.
- Quem lhe disse isto, bárbaro? - gritou Zadig. - Ainda que você tenha lido isso no Livro do Destino, quem lhe deu poder para afogar um jovem que nunca lhe fez nada?
Enquanto falava, Zadig viu que o ancião já não tinha mais barba e que seu rosto tinha se tornado jovem e belo. Seu traje de eremita havia desaparecido, quatro asas brancas cobriam a sua majestosa forma e brilhavam com ofuscante esplendor.
- Anjo do Céu! - gritou Zadig. - Você então desceu do céu para ensinar a um mortal extraviado a submeter-se às leis eternas?
- Os homens - replicou o anjo Jezrael - julgam todas as coisas sem conhecimento, e você é, de todos os homens, o mais merecedor de ser esclarecido. O mundo imagina que o jovem que acaba de perecer caiu por acidente na água e que a casa do filósofo se incendiou por acaso.
Mas a causalidade não existe: tudo é prova, castigo ou profecia.
Frágil mortal! Pare de questionar e de se rebelar contra o que você deveria adorar!
Depois de dizer estas palavras, o anjo alçou vôo até o céu e Zadig se prostrou ajoelhado.
quarta-feira, 2 de abril de 2008
Vinte
Atenta para as sutilezas
que não se dão em palavras.
Compreende o que não se deixa
capturar pelo entendimento.
Dentro do coração empedernido do homem
arde o fogo que derrete o véu de cima abaixo.
Desfeito o véu,
o coração descobre as histórias do Hidr
e todo o saber que vem de nós.
A antiga história de amor
entre a alma e o coração
regressa sempre
em vestes renovadas.
Ao recitares "sol"
contempla o sol.
Sempre que recitares "não sou"
contempla a fonte do que és.
Jalal ud-In Rumi
que não se dão em palavras.
Compreende o que não se deixa
capturar pelo entendimento.
Dentro do coração empedernido do homem
arde o fogo que derrete o véu de cima abaixo.
Desfeito o véu,
o coração descobre as histórias do Hidr
e todo o saber que vem de nós.
A antiga história de amor
entre a alma e o coração
regressa sempre
em vestes renovadas.
Ao recitares "sol"
contempla o sol.
Sempre que recitares "não sou"
contempla a fonte do que és.
Jalal ud-In Rumi
segunda-feira, 31 de março de 2008
Dezenove
Certa noite, o Mestre Bahaudin estava sentado, após o jantar, rodeado de um grande número de recém-chegados, jovens e velhos, todos desejosos de aprender.
O silêncio se fez, e o Mestre pediu que lhe fizessem uma pergunta:
- Qual é o obstáculo maior para o aprendizado e para o ensinamento do Caminho? - perguntou alguém.
O Mestre respondeu:
- As pessoas julgam segundo as aparências. Elas são atraídas pelos sermões, os barulhos e os rumores, e por tudo aquilo que os excita - como as abelhas pelo perfume das flores.
- Então como devem as pessoas se aproximarem da sabedoria, ou as abelhas das flores?
- O ser humano se aproxima da sabedoria pelos rumores e barulhos, os sermões e os livros, e em estado de excitação. Após se terem assim aproximado, eles ficam na proximidade mas somente para pedir ainda a mesma coisa e não por aquilo que a sabedoria pode dar - aquilo pelo qual ela ali está.
É o perfume que guia a abelha até a flor, mas, tendo chegado à proximidade da rosa, ela não se contenta em pedir mais perfume: ela se dispõe a recolher o pólen. Este néctar que ela deverá colher, é o equivalente da realidade da sabedoria da qual os rumores e imaginações são, de certa forma, o perfume.
A humanidade só conta com um pequeno número de “verdadeiras abelhas”. Enquanto que quase todas as abelhas são abelhas por sua aptidão para recolher o néctar, a maioria dos seres humanos não são ainda seres humanos - seres preparados para perceber aquilo que eles foram criados para perceber.
E o Mestre falou:
- Que aqueles que vieram aqui a Quasr al-Arifin, por causa do que leram, se levantem.
Muitos se levantaram.
- Que aqueles que chegaram até nós porque escutaram falar de nós, se levantem igualmente.
Foi ainda maior o número dos que se levantaram.
- Aqueles que ficaram sentados - retomou Bahaudin - estes vieram por que perceberam nossa presença e nossa verdade de uma outra forma, de maneira sutil.
- Entre aqueles que estão de pé, velhos ou jovens, há muitos que só querem ser sempre estimulados, cada vez mais, em seus sentimentos e procuram a excitação ou a tranqüilidade. Antes que eles possam aprender aquilo que não podem experimentar em outro lugar, eles deverão pedir o conhecimento e não a diversão e o espetáculo.
Depois ele disse o seguinte:
- Existem aqueles que são atraídos pela reputação de um mestre, e eles vêm lhe ver desejosos de experimentar ainda mais intensamente a mesma sensação. Quando este morre, eles visitam sua tumba, sempre pela mesma razão.
Enquanto suas aspirações não tiverem sido transformadas, como por alquimia, eles não encontrarão a verdade.
Depois há aqueles que visitam um mestre não porque eles escutaram falar dele como um conselheiro sábio e experimentado ou, se ele está morto, porque desejam ver sua tumba, mas por que eles reconhecem sua realidade profunda. Um dia virá onde cada um possuirá esta faculdade.
Então Bahaudin, o Desenhista, diz:
- Mas, enquanto se espera, o trabalho que será finalmente realizado através das gerações deverá ser realizado dentro de um mesmo indivíduo.
Para tornar-se um Moisés, se terá que transcender o Faraó. O homem que é atraído pela reputação deverá tornar-se, de uma certa maneira, um outro homem. Ele deverá tornar-se aquele que habita nas proximidades da sabedoria por que sentiu sua realidade profunda."
(desconheço a autoria)
O silêncio se fez, e o Mestre pediu que lhe fizessem uma pergunta:
- Qual é o obstáculo maior para o aprendizado e para o ensinamento do Caminho? - perguntou alguém.
O Mestre respondeu:
- As pessoas julgam segundo as aparências. Elas são atraídas pelos sermões, os barulhos e os rumores, e por tudo aquilo que os excita - como as abelhas pelo perfume das flores.
- Então como devem as pessoas se aproximarem da sabedoria, ou as abelhas das flores?
- O ser humano se aproxima da sabedoria pelos rumores e barulhos, os sermões e os livros, e em estado de excitação. Após se terem assim aproximado, eles ficam na proximidade mas somente para pedir ainda a mesma coisa e não por aquilo que a sabedoria pode dar - aquilo pelo qual ela ali está.
É o perfume que guia a abelha até a flor, mas, tendo chegado à proximidade da rosa, ela não se contenta em pedir mais perfume: ela se dispõe a recolher o pólen. Este néctar que ela deverá colher, é o equivalente da realidade da sabedoria da qual os rumores e imaginações são, de certa forma, o perfume.
A humanidade só conta com um pequeno número de “verdadeiras abelhas”. Enquanto que quase todas as abelhas são abelhas por sua aptidão para recolher o néctar, a maioria dos seres humanos não são ainda seres humanos - seres preparados para perceber aquilo que eles foram criados para perceber.
E o Mestre falou:
- Que aqueles que vieram aqui a Quasr al-Arifin, por causa do que leram, se levantem.
Muitos se levantaram.
- Que aqueles que chegaram até nós porque escutaram falar de nós, se levantem igualmente.
Foi ainda maior o número dos que se levantaram.
- Aqueles que ficaram sentados - retomou Bahaudin - estes vieram por que perceberam nossa presença e nossa verdade de uma outra forma, de maneira sutil.
- Entre aqueles que estão de pé, velhos ou jovens, há muitos que só querem ser sempre estimulados, cada vez mais, em seus sentimentos e procuram a excitação ou a tranqüilidade. Antes que eles possam aprender aquilo que não podem experimentar em outro lugar, eles deverão pedir o conhecimento e não a diversão e o espetáculo.
Depois ele disse o seguinte:
- Existem aqueles que são atraídos pela reputação de um mestre, e eles vêm lhe ver desejosos de experimentar ainda mais intensamente a mesma sensação. Quando este morre, eles visitam sua tumba, sempre pela mesma razão.
Enquanto suas aspirações não tiverem sido transformadas, como por alquimia, eles não encontrarão a verdade.
Depois há aqueles que visitam um mestre não porque eles escutaram falar dele como um conselheiro sábio e experimentado ou, se ele está morto, porque desejam ver sua tumba, mas por que eles reconhecem sua realidade profunda. Um dia virá onde cada um possuirá esta faculdade.
Então Bahaudin, o Desenhista, diz:
- Mas, enquanto se espera, o trabalho que será finalmente realizado através das gerações deverá ser realizado dentro de um mesmo indivíduo.
Para tornar-se um Moisés, se terá que transcender o Faraó. O homem que é atraído pela reputação deverá tornar-se, de uma certa maneira, um outro homem. Ele deverá tornar-se aquele que habita nas proximidades da sabedoria por que sentiu sua realidade profunda."
(desconheço a autoria)
domingo, 20 de janeiro de 2008
Dezoito
Se me perguntares: "a miséria, o pecado, o sofrimento, a desgraça, que são?" – responder-vos-ei: essas coisas são para o Jiva. Não afetam o Brahman. O mal para o Jiva não é mal para Brahman, da mesma forma que o veneno da presa da víbora não é veneno para a víbora. Outros podem morrer pela mordedura de uma serpente, assim, em verdade, é a existência do pecado só com relação ao Jiva. Quem pode descrever o que é o Absoluto Brahman? Tudo o que pode ser expresso pela boca fora manchado tanto quanto os resíduos do alimento. As escrituras Reveladas, os Vedas, os Tantras, os Puranas e todos os Livros Santos, foram sujos iguais às sobras de comida, porque foram expostos pelas bocas humanas. Porém, há uma coisa que jamais foi suja desta maneira e é o Absoluto Brahman. Ninguém conseguiu jamais descrever o Absoluto pelas palavras da boca. Brahman é inexpressivo, indescritível, incompreensível.
Râmakrishna
Râmakrishna
quinta-feira, 3 de janeiro de 2008
Dezessete
"Somos o espelho e também a face nele.
Estamos saboreando o todo agora mesmo
nesse instante de eternidade.
Somos a dor e aquilo que cura a dor.
Somos a água doce e fresca
e o jarro que a despeja.
Desejo te segurar firme, como um alaúde,
para que possamos chorar de tanto amor.
Você preferiria atirar pedras contra o espelho?
Eu sou o seu espelho, e aqui estão as pedras."
Jalal ud-In Rumi
Estamos saboreando o todo agora mesmo
nesse instante de eternidade.
Somos a dor e aquilo que cura a dor.
Somos a água doce e fresca
e o jarro que a despeja.
Desejo te segurar firme, como um alaúde,
para que possamos chorar de tanto amor.
Você preferiria atirar pedras contra o espelho?
Eu sou o seu espelho, e aqui estão as pedras."
Jalal ud-In Rumi
Dezesseis
Costumava eu cerrar os olhos durante a meditação. Depois pensei: "Se Deus existe depois de cerrados os olhos, porque não há de existir enquanto estão abertos?" Abri os olhos e vi a Existência Divina em todas as partes. Homens, animais, insetos, árvores, répteis, lua, sol, água, terra, em tudo e através de tudo se está manifestando a Divina Existência. Aquele que pensa em Deus por largo tempo, possui em si a Divina Substância.
Râmakrishna
Râmakrishna
Quinze
"Moro na transparência desses olhos,
nas flores do narciso, em seus sinais.
Quando a Beleza fere o coração,
a sua imagem brilha, resplandece.
O coração enfim rompe o açude
e segue velozmente rio abaixo.
Move-se generoso o coração,
ébrio de amor, em sua infância, e salta,
inquieto, e se debate; e quando cresce,
põe-se a correr de novo enamorado.
O coração aprende com Seu fogo
a chama imperturbável desse amor."
Jalal ud-Din Rumi
nas flores do narciso, em seus sinais.
Quando a Beleza fere o coração,
a sua imagem brilha, resplandece.
O coração enfim rompe o açude
e segue velozmente rio abaixo.
Move-se generoso o coração,
ébrio de amor, em sua infância, e salta,
inquieto, e se debate; e quando cresce,
põe-se a correr de novo enamorado.
O coração aprende com Seu fogo
a chama imperturbável desse amor."
Jalal ud-Din Rumi
Quatorze
"Quando o salmo cantar em vez do cantor,
Quando a escritura pregar em vez do pregador,
Quando o púlpito descer e partir em vez do carpinteiro que esculpiu o púlpito,
Quando os vasos sagrados ou os detalhes da eucaristia, ou a ripa e o reboco,
procriarem com a competência dos jovens artesãos ou pedreiros, ou os pedreiros em seus aventais,
Quando uma univesidade for mais convincente que o cochilo de uma mulher ou uma criança,
Quando o ouro na caixa-forte sorrir como a filha do guarda noturno,
Quando títulos de garantia folgarem na cadeira oposta e forem meus adoráveis companheiros,
Vou querer pegá-los com minha mão e fazer deles o que faço com os homens e mulheres."
Walt Whitman
Quando a escritura pregar em vez do pregador,
Quando o púlpito descer e partir em vez do carpinteiro que esculpiu o púlpito,
Quando os vasos sagrados ou os detalhes da eucaristia, ou a ripa e o reboco,
procriarem com a competência dos jovens artesãos ou pedreiros, ou os pedreiros em seus aventais,
Quando uma univesidade for mais convincente que o cochilo de uma mulher ou uma criança,
Quando o ouro na caixa-forte sorrir como a filha do guarda noturno,
Quando títulos de garantia folgarem na cadeira oposta e forem meus adoráveis companheiros,
Vou querer pegá-los com minha mão e fazer deles o que faço com os homens e mulheres."
Walt Whitman
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